Encarando o processo de perda e luto

“Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar”

 

Pedaço de Mim – Chico Buarque

 

 

Por que a morte é um tabu em nossa sociedade?

 

Morte e vida se apresentam como uma eterna dialética. Em vida a única certeza de acontecimento imprevisível, imutável e inevitável é o fenômeno da morte, talvez por isso assuste tanto algumas pessoas. Entretanto, trata-se do resultado normal do ciclo evolutivo, faz parte da própria natureza da vida biológica.

 

A morte está cada vez mais ocultada em nossa sociedade, sendo tratada como um tabu, tema que deve ser evitado a todo custo. Desde o nascimento somos educados a viver um processo psicológico de aversão a morte. O que se cria é um imenso vazio difícil de ser preenchido e superado, pois quem fica não encontra um espaço para que essa experiência possa ser relatada, sentida, resignificada e elaborada.

 

 

Sentimentos que surgem com o processo de luto:

 

O luto é compreendido como um processo psicológico que ocorre após a uma situação de perda e separação em relação a uma pessoa. Segundo a teoria de Elizabeth Kubler Ross, o luto pode ser postulado em cinco fases, que não necessariamente ocorrem em sequência, sendo:

 

  • Negação ou entorpecimento: negação em acreditar ou aceitar a morte, afastando a realidade numa tentativa de se proteger da dor causada pela perda;

 

  • Raiva ou desespero: diante do sentimento de impotência ou injustiça, a pessoa tenta buscar culpados, sentindo raiva de Deus, do morto, de algum parente ou de si próprio. É um sentimento comum e que deve ser expressado, portanto, é importante ter alguém que possa acolher essa raiva e ajudar a elaborá-la.

 

  • Barganha: tentativa de negociar com o destino, normalmente evidenciando a dificuldade da pessoa em abrir mão do controle que acredita ter sobre a situação;

 

  • Depressão: Neste momento a pessoa passa a reconhecer as limitações humanas. Sentimentos como tristeza, a desesperança, a perda de sentido e a amargura surgem neste momento. Se a pessoa não encontra mais motivações para fazer nenhuma atividade, permanecendo apática e com ideias negativas ou suicidas, é importante buscar ajuda psicológica para enfrentar este momento.

 

  • Aceitação: Nesta fase há uma maior tolerância e adaptação às mudanças, sem a presença da negação ou desespero.  Aceitar não é não sentir dor ou esquecer a morte, mas é o momento em que é possível realizar as resignificações necessárias e a possibilidade de aceitar e criar planos para o futuro.

 

 

Quando buscar ajuda profissional?

 

Claro que este é um processo doloroso e complexo, sendo uma ferida muito profunda e a perda difícil de ser elaborada, mas o luto é um processo natural e não há necessidade de intervenção profissional em todos os casos. Cada pessoa tem um ritmo pessoal e particular para lidar com a morte, dependendo muito do contexto cultural, social ou religioso em que está inserido.

 

O processo de perda e luto naturalmente traz para a pessoa enlutada um profundo e intenso sofrimento psíquico, gerando diversos sentimentos como negação, raiva, culpa, saudades, entre outros. Entretanto, com o passar do tempo é importante que tais sentimentos sejam resignificados e elaborados, lembrando que a perda não será esquecida, mas a dor será amenizada e haverá possibilidade de dar continuidade a própria vida.

 

Como psicoterapeuta tenho trabalhado no atendido de pessoas que ao perder um ente querido com quem mantinham forte vínculo afetivo, vivenciaram uma dor tão intensa que as desorganizaram internamente e sofreram prejuízos em alguns campos e aspectos de suas vidas. O luto não internalizado e não elaborado trouxeram diversas consequências que acabaram paralisando-as.

 

A psicoterapia é indicada para pessoas que se encontram em estado prolongado de sofrimento, depressão, ansiedade, completa desorganização e sensação de caos absoluto, dificuldade de encontrar novos objetivos de vida ou não ter com quem falar sobre a pessoa que morreu. É ainda um espaço em que o enlutado poderá manifestar seus sofrimentos e pensamentos, tendo seus sentimentos respeitados e acolhidos, possibilitando-o redescobrir o prazer e o sentido de sua vida.

 

 

E daqui para frente...

 

Diante da perda real de alguém, nossa consciência toma contato concreto com o fenômeno da morte. É natural que ao vivenciar o luto, a pessoa comece a refletir sobre a sua própria vida, valores, relacionamentos e objetivos. Começa a se dar conta que da finitude da vida e que a morte é um fenômeno sobre o qual o ser humano não pode prever ou controlar.

 

Elaborar o luto indica passar da negação para a aceitação e superação, enunciando que a pessoa compreende internamente, que a morte faz parte do ciclo biológico e humano. Claro que quem fica sentirá saudades da pessoa morreu  e será visitada por lembranças em diversos momentos, mas ainda assim sente que conseguiu resinificar o conceito de vida e morte, pois a morte representa a vida e o processo de transformação.

 

A vida não mais será a mesma após a perda, mas o sofrimento não precisa ser para sempre. É possível ser feliz de novo. Apesar da morte se apresentar como uma experiência dolorosa, também traz uma oportunidade de aprendizagem e amadurecimento pessoal.

 

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